segunda-feira, 2 de abril de 2012

PORQUE EU ACREDITO QUE ESTAMOS VIVENDO O MILÊNIO. Parte Final

Por. Pb. João Batista de Lima
DAS PASSAGENS CONSIDERADAS DECISIVAS PELOS MILENARISTAS
Romanos 11
Os pré-milenaristas e os pós-milenaristas apelam para essa passagem como provedora do apoio significativo à sua posição.
Contudo, deveria ser enfatizado que a conclusão de Paulo em Romanos 11, que prediz uma futura conversão em massa do Israel étnico antes do retorno de Cristo, não prova, por si só, a correção de qualquer posição milenar particular. Afinal, essa explanação não foi apresentada somente por pré-milenaristas e pré-milenaristas, mas também por alguns destacados amilenaristas. Stanley Grenz insistiu que “o apóstolo antecipa claramente a futura conversão de Israel em grande escala, um evento que introduziria um glorioso dia para o mundo inteiro” . Grenz, porém, nota que tal esperança “não requer um reinado terrestre milenar de Cristo, pois a conversão de Israel poderia facilmente preparar tanto para a inauguração do Estado eterno, quando para a dourada era terrena”.
A alegação de Grenz de que em Romanos 11 o apostolo prediz “claramente” uma futura conversão nacional de Israel é discutível, como veremos. Mas o que é inegavelmente claro é que em toda essa seção da epistola, na qual Paulo focaliza especialmente a questão do lugar dos judeus no plano divino de salvação (caps. 9—11), ele não diz uma palavra sobre o retorno dos judeus à Terra Prometida, ou sobre um reino milenar no qual Cristo reinará em Jerusalém; nem há ali referencia clara à “era dourada” antes do retorno de Cristo, na qual este mundo será amplamente cristianizado. O amilenarista pode “relaxar” enquanto estuda essa passagem, sabendo que as posições milenares não estão em jogo.
No capitulo 9.1-5, Paulo inicia sua resposta pelo reconhecimento de que Israel ainda era realmente escolhido por Deus e assim o possuidor das mais elevadas bênçãos espirituais, e pelo reconhecimento, com grande tristeza, de que seus companheiros judeus (em sua maioria) não estavam agora usufruindo a bênção da salvação em Cristo. Mas, iniciando no versículo 6, ele rejeita a implicação falsamente extraída desse fato: “Não pensemos que a palavra de Deus falhou. Pois nem todos os descendentes de Israel são Israel”. Como poderia Deus rejeitar nação a que havia escolhido? A resposta de Paulo: Eleição e nacionalidade não são igualmente inclusivas. Que Israel seria abençoado, não significa necessariamente que toda nação seria bendita. O verdadeiro Israel consiste nos filhos da promessa, a eleição da graça, e eles foram abençoados. Paulo fornece uma serie de exemplos para mostrar que os meros descendentes de Abraão não têm garantida a posse das bênçãos prometidas ao patriarca.
No inicio do capitulo 11 o apostolo repete o argumento do capitulo 9. Deus tem seu verdadeiro Israel, seus eleitos, mas essa eleição não é coextensiva a toda a nação. O próprio Paulo é um exemplo de judeu eleito (11. 1). Até Elias aprendeu que o remanescente eleito é contado como sete mil em seus dias, “hoje há também um remanescente escolhido pela graça” (11. 5).
Mas o fato é que Paulo consistentemente apresenta apenas uma resposta nos capítulos 9—11, a saber, que rejeição de Israel não é total e que nem todos os de Israel são Israel. Romanos 11 trata do lugar de Israel nos propósitos redentivos de Deus no tempo presente, e não em um tempo futuro. A esse respeito, veja Apocalipse 2. 25,26: Lucas 21. 24; 1Co 11. 26; 1Co 15. 25.
O que o apostolo Paulo ensina em Romanos 11. 25 é que o endurecimento por parte do Israel étnico continuará até que o numero completo dos gentios tenha vindo. Enfatizamos que o tema de Paulo nesse capitulo é o processo do “movimento de onda”, pelo qual a salvação vem tanto para gentios quanto para judeus por intermédio desta era evangélica. Embora esse seja um processo que está agora em operação, ele é um processo. Quando Paulo fala da “plenitude” de Israel (v. 11), “todo Israel” (v. 26), e a “plenitude” dos gentios (v. 25), ele está olhando para a conclusão do processo e de seus resultados. De acordo com o apostolo, a gloriosa bênção que será o resultado da plenitude dos eleitos gentios e da plenitude dos eleitos judeus, agregados à família de Deus pela fé, será nada menos do que “vida dentre os mortos” (v. 15). Isto é, o dia da ressurreição terá chegado. Com a entrada da plenitude de Israel e dos gentios, propósitos redentivos de Deus estarão cumpridos. Não haverá então período algum adicional à história, para delongar a realização das bênçãos da redenção.
Apocalipse 20.1—10
Obviamente, essa passagem, o único lugar na Bíblia em que aparece a referencia aos “mil anos”, é uma das mais significativas para nossa discussão.
Os amilenaristas concordam que se uma verdade é ensinada com clareza na Bíblia, ela deve ser crida—mesmo que seja ensinada em um só versículo. “A abordagem exegética deve sempre preceder a teológica [...] Ninguém pode aproximar-se das Escrituras com um sistema escatológico e ajustar os outros escrituristicos a ele”. Precisamos, certamente, concordar que essa é uma abordagem saudável de qualquer passagem bíblica. Fazemos, contudo, duas perguntas:
1) Os pré-milenaristas são fiéis a esse principio em sua interpretação das Escrituras? Cremos que Benjamim Warfield estava correto em seu julgamento de que
Houve muito menos interpretação tendenciosa (interpretação parcial) de Apocalipse 20 no interesse de teoria preconcebida, do que houve interpretação tendenciosa do resto da Escritura no interesse de questões derivadas da má compreensão dessa obscura passagem.

2) Será que esse é um principio valido de interpretação bíblica, que porções menos claras e mais difíceis da Bíblia sejam interpretadas á luz das partes mais claras, a poesia á luz da prosa, o figurativo á luz do literal? Isso não é a mesma coisa que dizer que a interpretação pré-milenarista de Apocalipse 20 esteja perfeitamente correta e sem qualquer problema de exegese. Mas devemos questionar se deveríamos estar dispostos a colocar de lado todo o NT, ou forçar interpretações artificiais com base em uma breve passagem em um apocalipse que admitidamente é altamente figurativo, rico em símbolos e, portanto, um tanto difícil.
Como escreveu Archibald Hughes: “É fundamento muito precário, em um livro de visões simbólicas, apanhar tal frase—‘mil anos’—e fazer dela um alicerce sobre o qual levantar uma superestrutura de um completo sistema interpretativo”.
Ao apresentar agora uma breve interpretação de Apocalipse 20. 1-10, um esboço de sete tópicos pode ser útil.
1) Observe que nada há na passagem que forneça alguma sugestão que deva ser relacionada às profecias veterotestamentária que falam de uma era vindoura de glória
Nacional para Israel. Essas passagens relatam a herança da Canaã terrestre e a glória para Jerusalém terrestre. Não há nada sobre isso em Apocalipse 20. Ele fala sobre um reino eterno. Então, à primeira vista, poderia parecer que a presente passagem e essas profecias do AT não estão falando do mesmo assunto. Finalmente, não há nada nessa passagem apocalíptica que evidencie um elo entre elas.
2) A ordem na qual as visões aparecem no livro do Apocalipse não é, necessariamente, a ordem de cumprimento. Parece que o final do capitulo 19 nos leva diretamente ao final da era, à segunda vinda de Cristo, à grande batalha final, ao julgamento da besta e do falso profeta. Isso não quer dizer que o capitulo 20 fala do que acontecerá em seguida. As visões ali retratadas podem levar-nos à primeira vinda de Cristo e ao começo da presente era evangélica. Nesse caso, esse não seria um fenômeno único nesse livro. Talvez o exemplo mais claro de um retorno abrupto ao começo da igreja seja encontrado no capitulo 12. Em 11.18, lemos que chegou “o tempo de julgares os mortos”. Fomos levados ao final da era no encerramento do capitulo 11. Com o capitulo 12, porém, voltamos ao começo do período do NT, com uma visão figurativa do nascimento de Cristo e de sua ascensão ao trono de Deus. Se isso pode acontecer nos capítulos 11 e 12, não podemos excluir a possibilidade de que, nos capítulos 19 e 20, também somos levados em visão à segunda vinda de Cristo, e a seguir trazidos de volta à primeira vinda. Não devemos simplesmente supor que o capitulo 20 tenha de descrever eventos que acontecem depois dos acontecimentos descritos no capitulo 19.

3) Há duas visões em Apocalipse 20. 1-10 unidas pela frase “mil anos”. Assim, podemos concluir que as duas são contemporâneas. Não obstante, elas são visões separadas. Os versículos 1-3 e 7-10 caminham juntos. Eles falam sobre Satanás: Satanás amarrado e Satanás liberto. Os versículos 4 e 6 são um pouco parentéticos e nos dão uma visão distinta de almas, de tronos e de reinado. Entendemos que uma das visões se refere a certos eventos terrenos, e que a outra visão trata de uma porta aberta numa situação celestial.

4) Como devemos interpretar o símbolo de Satanás sendo “amarrado”? O capitulo 12 já falou de certa restrição ao dragão, Satanás, depois da ascensão de Cristo. Satanás não pôde realizar seu proposito. Ele quis destruir a mulher e sua descendência, mas não conseguiu fazer isso. Ele é contido por Deus. Será que o capitulo 20 tem em vista outra fase de Satanás em que ele será reprimido, alguma coisa independente daquilo que foi descrito no capitulo 12? Ou será esse exemplo uma espécie de declaração em termos um pouco diferentes e de símbolos diversos que são característicos de Apocalipse? Talvez 20. 1-3 esteja falando de outro aspecto da restrição colocada sobre Satanás, como consequência da obra redentiva de Cristo e de sua glorificação triunfante.
Devemos lembrar-nos do ensino escatológico do NT como um todo, que é apresentado em termos não de um, mas de dois grandes pontos culminantes: a primeira vinda de Cristo e a segunda vinda de Cristo. Com a segunda vinda de Cristo haverá plena e completa consumação. Mas já na primeira vinda de Cristo temos o que poderíamos chamar de consumação antecipada. Temos a batalha decisiva e a grande vitória conquistada. Em sentido real, o reino de Deus já veio e Cristo já lidou de forma decisiva com Satanás.
É importante recordar como a obra de Cristo em sua primeira vinda é descrita no NT, em relação a Satanás. Em Mateus 12. 28,29, nosso Senhor diz:
Mas se é pelo Espirito de Deus que eu expulso demônios, então chegou a vocês o Reino de Deus.
Ou, como alguém pode entrar na casa do homem forte e levar dali seus bens, sem antes amarrá-lo? Só
Então poderá roubar a casa dele.

Esse é um grande evento escatológico: O reino de Deus chegou! Para explicar esse evento, nosso Senhor nos conta uma breve parábola. Como alguém vai lançar mão das posses de um homem forte, posses que ele obteve, sem dúvida, por meios ilegais? O modo de fazer isso é primeiro amarrá-lo (o verbo grego traduzido aqui por “amarrar” pela NVI é o mesmo usado em Ap 20.2); e então lhe surrupiar os bens. Jesus propõe essa parábola para descrever claramente a missão que veio cumprir.
Em João 12. 31, quando nosso Senhor fala do significado de sua morte vindoura, diz: “Chegou a hora de ser julgado o príncipe deste mundo; agora será expulso o príncipe deste mundo”. O dia do juízo chegou e o príncipe deste mundo (Satanás) será expulso (o verbo grego empregado aqui é o mesmo de Apocalipse 20. 3, “lançar”, com acréscimo do prefixo “fora”). “Agora”, e Jesus diz, por meio de sua obra expiatória, isso acontecerá (leia todo o contexto de Jo 12. 20-33).
Em Colossenses 2. 15, o apóstolo Paulo descreve de forma vivida a vitória de Cristo na cruz sobre os poderes demoníacos: “E, tendo despojado os poderes e as autoridades, fez deles um espetáculo público, triunfando sobre eles na cruz”. Cristo desarmou as hostes satânicas. Que grande vitória!
Hebreus 2. 14,15 fala de Cristo assumindo nossa humanidade “portanto, visto que os filhos são pessoas de carne e sangue, ele também participou dessa condição humana, para que, por sua morte, derrotasse aquele que tem o poder da morte, isto é. O diabo, e libertasse aqueles que durante toda a vida estiveram escravizados pelo medo da morte”. Essa linguagem é incrivelmente poderosa, podemos pensar—o diabo destruído! (O verbo grego é o mesmo que Paulo utiliza em 1Co 15. 26 com referencia a Cristo destruindo a morte, o último inimigo, na ressurreição).Não é o NT que nos diz que “o diabo, o inimigo de vocês, anda ao redor como leão, rugindo e procurando a quem possa devorar” (1Pe 5.8)? Sim, ele o faz; e o que Pedro está dizendo é verdade. Mas note o tipo de linguagem que o escritor de Hebreus usa para descrever a vitória de Cristo sobre Satanás na cruz, porquanto ele vê essa vitória como eternamente significativa.

Em 1João 3.8, lemos que “para isso o Filho de Deus se manifestou: para destruir as obras do diabo”. No contexto, João está dizendo que se você estiver fazendo as obras do diabo, então mostrar estar do lado de um inimigo derrotado. Cristo é o vencedor. Se você é verdadeiramente de Cristo, não se ocupará das obras do diabo.
Em outras palavras, o NT enfatiza dois pontos culminantes na vitória de Cristo sobre Satanás: a vitória na cruz e a vitória em sua segunda vinda. Devemos perguntar então: essa dupla estrutura culminante é preservada em Apocalipse 20. 1-10?
Ou será que temos aqui uma nova característica que requeira uma revisão significativa da perspectiva básica do NT? Estamos nós agora prestes a adotar uma perspectiva que vê três focos culminantes: 1) vitória na cruz e na ressurreição; 2) vitória na segunda vinda de Cristo e na inauguração de seu reino milenar e 3) vitória final ao término do milênio?
Ao examinarmos a passagem, descobrimos boa razão para sugerir que Apocalipse 20 não apresenta tal modificação da consistente perspectiva neotestamentaria. Antes, Apocalipse 20. 1-10 é uma representação figurada da vitória de Cristo sobre Satanás em cada um dos seus dois pontos culminantes.

Na cruz, Satanás é aprisionado—mas não absolutamente. Apocalipse 20. 2,3 não diz que
Satanás está preso, e ponto final. Ele está cativo em um só aspecto, isto é, “impedido de enganar as nações [os gentios]”. A era da salvação para os gentios chegou. Antes do ministério de Jesus Cristo, Israel era a única nação chamada dentre todas as nações do mundo para conhecer as bênçãos de Deus e servi-lo. Havia exceções, naturalmente—aqueles que vieram conhecer a graça de Deus, embora não fossem filhos de Abraão segundo a carne. Mas, essencialmente, todas as nações da terra estavam na escuridão, sob o engano de Satanás. Entretanto, louvado seja Deus! Cristo veio e realizou sua obra redentora. No dia de Pentecostes, o Espirito Santo foi derramado sobre “todos os povos” (At 2.17), o que significa que o evangelho de Cristo é para todas as nações, e não apenas para o povo judeu. A era das missões mundiais havia começado, e a obra enganadora de Satanás, operada em grande escala por muitos séculos, chegara ao fim. O próprio Senhor ressurreto deu a seus apóstolos esta comissão (At 26. 17,18):
Eu o livrarei do seu próprio povo e dos gentios, aos quais eu o envio para abrir-lhes os olhos e convertê-los das trevas para a luz, e do poder de Satanás para Deus, a fim de que recebam o perdão dos pecados e herança entre os que são santificados pela fé em mim.

Antes de deixar a referencia ao aprisionamento de Satanás em Apocalipse 20, há um texto adiciona digno de nota. Muitos cristãos acreditam sinceramente que dizer que Cristo aprisionou Satanás na cruz é incompatível com a presente atividade real de Satanás. Mas, considere o quadro apresentado em Judas 6 (v. 2Pe 2. 4):
E quanto aos anjos que conservaram suas posições de autoridade, mas abandonaram sua própria morada, ele os tem guardado em trevas, presos com correntes eternas para o juízo do grande Dia.

O que significa isso? Será que significa que toda a linguagem de Paulo sobre a nossa luta contra os poderes demoníacos das trevas (Ef 6. 11,12) é uma retórica muito adornada? Afinal de contas, os demônios estão em correntes. Não há luta real alguma para o cristão aqui nesta vida, certo? Errado! A declaração de Judas não significa nada disso. Não significa que esses anjos decaidos não estejam ativos. Significa que eles estão operantes dentro dos limites da permissão divina, e que seu fim está traçado.
Então, poderíamos muito bem perguntar: Se Judas, por inspiração do Espirito, pôde descrever todos esses demoníacos seres como estando agora em correntes eternas, por que deveríamos interpretar que a prisão de Satanás como uma referencia ao que é verdadeiro agora seja de alguma maneira incompatível com atividade satânica atual? Essa é a linguagem bíblica, que não é mais contraditória em relação à atividade presente de Satanás do que Judas 6 é contraditório em relação à atividade presente de toda a hoste de anjos caídos.

5) Em Apocalipse 20.8, temos uma referencia à “batalha”. O texto grego tem o artigo definido (“o”), e é importante não deixar esse fato passar despercebido, porque lemos sobre “a batalha” em outros pontos do livro do Apocalipse. Em 16. 14, por exemplo, lemos: “São espíritos de demônios que realizam sinais miraculoso; eles vão aos reis de todo o mundo, a fim de reuni-los para a batalha do grande dia do Deus Todo-Poderoso”. E em 19. 19: “então vi a besta, os reis da terra e os seus exércitos reunidos para guerrearem [no texto grego o nome com o artigo definido aparece aqui; literalmente, ‘a batalha` contra aquele que está montado no cavalo e contra o seu exercito”]. Em 16. 14, os reis são convocados para a batalha. Em 19. 19, a besta e os reis da terra vêm para a batalha. Em 20.8, Satanás conduz sua hoste para a batalha. Parece claro que esses três textos não descrevem três batalhas, mas uma. O novo ponto revelado em 20. 8 (porque Apocalipse nunca se repete por mera repetição como algo
Novo é revelado a cada vez) é o que acontece a Satanás em resultado dessa batalha. O capitulo 19 registra o que sucederá com a besta e o falso profeta, como resultado de sua derrota nessa batalha. Aqui, em 20. 10, aprendemos o que ocorrerá com Satanás. Os versículos interpostos entre 19. 19 e 20. 10 nos levam de volta à primeira vinda de Cristo, e à prisão de Satanás como resultado de sua obra redentora.
6) Chegamos agora à cena parentética dos versículos 4-6, acerca do reinado dos santos, em que o véu de separação entre céu e terra é afastado e nos é permitido dar uma rápida olhada nos santos de Deus reinando com Cristo. Observe que não há referencia alguma nesses versículos, direta ou indiretamente, a coisa ou negócios terrestres. De fato, em termos de vocabulário, essa visão é muito semelhante às outras visões celestiais no Apocalipse.
Permitam-me explicar. Em 20. 4, há uma referencia às “almas” (psychai). Essa palavra pode ser usada no NT para referir-se simplesmente a “pessoas”. No texto grego de Atos 2. 41, por exemplo, lemos que três mil psychai foram salvas no dia de Pentecostes. Nessa declaração, não há ênfase alguma no aspecto de “alma” como oposta a “corpo” do ser humano. Mas no contexto de Apocalipse 20. 4, em que João vê “as almas dos que foram decapitados por causa do testemunho de Jesus”, parece que esse texto pretende apontar para um contraste entre alma e corpo
Há ai também uma referencia a tronos. Em todo o Apocalipse, o trono de Cristo e seu povo sempre estão no céu. Em 3. 21, é feita uma promessa especifica: “Ao vencedor darei o direito de sentar-se comigo em meu trono, assim como eu também venci e sentei-me com meu Pai em seu trono”. Apocalipse 20. 4 retrata o cumprimento dessa promessa bendita. Os versículos 4-6 formam a visão do reino dos cristãos com seu Salvador, após eles partirem desta vida e enquanto esperam a segunda vinda de Cristo, a ressurreição e a felicidade eterna. Os santos são descritos como mártires por seu Senhor. Talvez esse retrato represente todo o povo de Deus. Nas visões do Apocalipse “todos são santos ideais ou pecadores ideais”. Note que no versículo 5, os mártires são contrastados com “o restante dos mortos”—aqueles que conhecerão com “todos os descrentes”.
No versículo 5, lemos que “ o restante dos mortos não voltou a viver até se completarem os mil anos”. A observação que João faz não é que eles então viverão. Antes, ele enfatiza que os descrentes não usufruirão a maravilhosa bênção de viver e reinar com Cristo durante os mil anos. Lembre-se do que dissemos antes, quando consideramos Romanos 11. 25, sobre a força escatológica conclusiva do trono “ate”. Recorde-se também do que falamos ao considerar 1Corintios 15. 22, sobre o rico significado salvifico da vida em Cristo, vida que é realmente vida. Como nosso Senhor nos disse em João 5. 29, apenas “os que fizeram o bem ressuscitarão para a vida [...] e os que fizeram o mal ressuscitarão para serem condenados” (grifo do autor).
É mencionado, em Apocalipse 20.6 e 14, que a única coisa que espera esses mortos após os mil anos é “a segunda morte”. Não é que João negue que eles serão ressuscitados corporalmente para enfrentar o juízo (v. 13). Mas ele nunca descreve os descrentes como “vivos” ou “ressurretos”. Seus nomes simplesmente não estão escritos “no livro da vida” (v. 15, grifo do autor). Muito embora possam estar adiante do grande trono branco em juízo, eles são descritos como “mortos” (v. 12). Em outras palavras, o quadro de João não retrata que os crentes vivem na segunda vinda de Cristo e os descrentes vivem no final do milênio. Os incrédulos verdadeiramente nunca vivem. Os crentes vivem e reinam com Cristo por mil anos.
O restante dos mortos, diz João, não desfrutam essa maravilhosa bênção. Eles não vivem durante esses mil anos. O que eles experimentarão em vez disso? A segunda morte, nos versículos 5 e 6, João fala da “primeira ressurreição”. Essa frase implica claramente uma segunda ressurreição. Mas isso significa que, afina, o pré-milenarismo está correto, que haverá duas ressurreições, a dos crentes na segunda vinda de Cristo e a dos mortos mil anos após? Não! A referencia à primeira ressurreição implica uma segunda—uma segunda ressurreição para as mesmas pessoas! De forma semelhante, “a segunda morte” (v. 6) implica a primeira morte—mas também para as mesmas pessoas os descrentes.
Poderíamos dizer que o crente em Cristo experimentará duas mortes e duas ressurreições. A primeira ressurreição ocorre quando ele parte desta vida e é imediatamente conduzido a presença de Cristo para reinar com ele. A segunda ressurreição será corpórea na segunda vinda de Cristo, quando os crentes são aprontados para o estado eterno (1 Co 15. 50). Os incrédulos, por contraste, experimentarão apenas uma ressurreição—e a ressurreição da condenação, mas eles sofrerão duas mortes. A primeira morte é psicofísica, na terra. A segunda morte será eterna, em seguida ao julgamento.
O apostolo João, porém, não fala que o crente conhecerá a morte!—ou que o incrédulo passará pela ressurreição. Como Meredith G. Kline observa:
Da mesma maneira que a ressurreição do injusto é paradoxalmente identificada como “a segunda morte”, assim a morte do cristão é paradoxalmente identificada como “a primeira ressurreição[...]” O que para os outros é a primeira morte, para os cristãos é a verdadeira ressurreição.
7) Apocalipse 20, então, apresenta um panorama da era evangélica, os propósitos de Deus na terra e a bênção de seu povo no céu, seguidos de uma vivida narrativa do juízo final e da consumação. Mas qual é o significado do número “mil”? Podemos supor que o número é simbólico, pois os números são usados simbolicamente em todo o Apocalipse. Mas qual é o significado desse símbolo? É impossível ser dogmático sobre tal assunto, mas a sugestão de geerhardus Vos é certamente:
O simbolismo dos mil anos consiste no seguinte: contrasta o estado glorioso dos mártires com o breve tempo de tribulação passada na Terra, por um lado, e com a vida eterna da consumação por outro.
A visão de João é determinada pelo Espirito para a edificação e o fortalecimento do povo de Deus de todas as épocas. Por isso os cristãos são encorajados a combaterem o bom combate (2 Tm 4, 7), tendo toda garantia de que em Cristo eles vencerão o maligno para reinar com seu Salvador.
O povo de Deus de todos os tempos foi salvo “em esperança” (Rm 8.24). a esperança dos santos da antiga aliança foi orientada para a vinda do prometido Redentor divino. As riquezas do Messias e de sua obra redentiva lhes foram retratadas, se forma expressiva, em termos dos elementos centrais de sua experiência religiosa: a terra de Canaã, a cidade de Jerusalém, o trono de Davi, o templo e a própria nação de Israel. Porque ele é Deus encarnado, verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, em Jesus Cristo, as duas principais linhas da expectativa messiânica do Antigo Testamento convergem: 1) a promessa de que o próprio Deus viria e se revelaria como Senhor (por exemplo, a profecia de Isaias 40.3 sobre uma voz clamando no deserto para preparar “o caminho para o Senhor”, foi cumprida no ministério de João Batista preparando o caminho para Jesus [Mt 3.1-3]); e 2) a promessa de que o Senhor
Enviaria seu Servo ungido. Em Jesus convergem as duas linhas de expectativas escatológica. Ele é “Cristo do Senhor” (Lc 2.26), é também, ao mesmo tempo, “Cristo, o Senhor “ (Lc 2.11).
Como aqueles sobre quem “tem chegado o fim dos tempos” (1 Co 10.11), nós cristãos temos o inestimável privilegio de conhecer o cumprimento da esperança do AT. Por causa da obra concluída do crucificado e ressurreto Senhor Jesus Cristo e do ministério do Espirito Santo que ele derramou sobre a igreja no Pentecostes, experimentamos todas as maravilhas bênçãos da vida em união com Cristo.
Mas nós continuamos caminhando pela fé e vivendo em esperança. O dia da consumação ainda jaz adiante. A perfeição da bênção para o povo de Deus virá somente quando o próprio Cristo aparecer pela “segunda vez, não para tirar o pecado, mas para trazer salvação aos que o aguardam” (HB 9.28). Aquela “manifestação de nosso grande Deus salvador , Jesus Cristo” (Tt 2. 13) dará inicio ao grand finale da história redentiva: a ressurreição dos crentes, a ressurreição dos descrentes, o julgamento de todos, os novos céus e a nova terra e a inauguração do reino final de Deus, o bendito estado eterno dos redimidos. Essa é “a bem-aventurada esperança” da igreja, e por essa esperança somos sustentados para servir ao nosso Deus em amor e alegria, através de toda tribulação, até que toda a nossa esperança seja cumprida no retorno de nosso Salvador. AMEM! SOLI DEO GLORIA!!

Nenhum comentário:

Postar um comentário