sexta-feira, 29 de março de 2013

Ellen White e a doutrina monstruosa.


Por Clóvis Gonçalves
No livro O Grande Conflito, existe uma declaração que Leandro Quadros considera a síntese do pensamento de Ellen White sobre a predestinação calvinista. Ei-la:
Estas monstruosas doutrinas são essencialmente as mesmas que o ensino posterior dos educadores e teólogos populares, de que não há lei divina imutável como norma do que é reto, mas que o padrão da moralidade é indicado pela própria sociedade, e tem estado constantemente sujeito a mudança. Todas estas idéias são inspiradas pelo mesmo espírito superior, sim, por aquele que mesmo entre os habitantes celestiais, sem pecado, iniciou sua obra de procurar derruir as justas restrições da lei de Deus.

Sai daí a base de Quadros para afirmar que a doutrina calvinista é satânica. Essa afirmação encontra-se no capítulo 14, o mesmo em que White menciona com aprovação o nome e as doutrinas de eminentes predestinistas, entre os quais Martinho Lutero, Ulrich Zwinglio, John Knox, John Bunyan, Richard Baxter, John Flavel, Joseph Alleine e George Whitefield: “O grande princípio mantido por aqueles reformadores... foi a autoridade infalível das Escrituras Sagradas como regra de fé e prática... A Bíblia era a sua autoridade, e por seus ensinos provavam todas as doutrinas e reivindicações”, disse ela sobre todos eles. Soa incoerente ela em seguida classificar a predestinação, juntamente com o antinomianismo, como “monstruosas doutrinas”, inspiradas por Lúcifer? Soa, mas coerência não é a característica principal dos adventistas.

No entanto, há um fato desconhecido por muitos adventistas: a declaração não é da pena de Ellen White. Trata-se de uma alteração feita W. W. Prescott na edição de 1911 do Grande Conflito. Surpreso pelo espírito de profecia precisar ser revisado e corrigido? Mas foi, aqui e em outros 105 pontos, apenas nessa edição da obra. O que White escreveu, e que consta na edição de 1888, é: "Esta monstruosa doutrina é essencialmente a mesma coisa que a alegação dos romanistas, de que ‘o Papa pode dispensar acima da lei, e do errado fazer certo, pela correção e mudança nas leis”, e que ‘ele pode pronunciar sentenças e julgamentos em contradição... com a lei de Deus e dos homens’”. O filho de Ellen White questionou Prescott sobre a alteração e este a justificou dizendo que a afirmação da senhora White estava errada e que os adventistas se veriam em dificuldades se alguém pedisse a fonte da declaração.

Além do todo da redação ter sido alterado, na versão original, “monstruosa doutrina” está no singular e se refere ao antinomismo apenas e não ao calvinismo conjuntamente. A autora compara “esta monstruosa doutrina” com a revindicação romanista de que o Papa pode mudar as leis de Deus e dos homens, dizendo em seguida que “ambas revelam a inspiração” do Diabo. O singular, a referência ao romanismo e a palavra “ambas” tornam gramaticalmente impossível inserir ali a “predestinação calvinista”, como faz Leandro Quadros. São dois pontos a se ter em conta: as palavras não são de Ellen White e ela não fez referência direta ou indireta à doutrina da predestinação, mas unicamente ao antinomianismo e ao romanismo.

Seja como for, o fato é que Ellen White está trabalhando sobre declarações que não são, de forma alguma, expressões da doutrina da predestinação conforme entendida pelos calvinistas. Prova isso a própria fonte utilizada por ela, a Cyclopaedia of Biblical, theological, and ecclesiastical literature, de John McClintock e James Strong. Esta obra atribui a origem moderna do antinomianismo a John Agricola, um dos primeiros cooperadores de Lutero. Compreendendo erradamente algumas palavras de Lutero e Melâncton sobre a justificação sem as obras da lei, Agricola apregoou a doutrina antinomiana e foi por isso repreendido severamente por Lutero, não uma mas várias vezes, até que admitiu publicamente seu erro e se reconciliou com Lutero. Desnecessário dizer que Lutero era mais predestinista que Calvino e combateu duramente a teoria do livre-arbítrio, veja-se seu Nascido Escravo para confirmar.

Segundo a mesma obra, o antinomianismo foi defendido nos dias de Oliver Cromwell por um tal John Saltmarsh, que entre outras coisas defendia o universalismo e a justificação eterna, ou seja, que os eleitos eram justificados antes mesmo de nascerem, daí sua declaração de que “as ações ímpias que cometem não são realmente pecaminosas, nem devem considerar-se como violação da lei divina por parte deles, e que em conseqüência não têm motivo quer para confessar os pecados, quer para com os mesmos romper pelo arrependimento”, mencionada por White. Saltmarsh foi combatido por Samuel Rutherford, calvinista escocês que participou da Assembleia de Westminster. Mais tarde, o também calvinista Richard Baxter iria refutar seus ensinos.

Ao lado de Saltmarsh, os principais antinomianos da época foram Crisp, Richardson, Hussey, Eaton e Town, segundo os mesmos McClintock e Strong. E estes foram atacados e refutados com sucesso pelos calvinistas Thomas Gataker, Andrew Fuller, Richard Baxter e, principalmente, por Daniel Williams, além de outros. Embora escrita por teólogos de orientação wesleyana, a obra é cuidadosa em distinguir entre hiper-calvinismo e antinomianismo de um lado e o calvinismo dos reformadores de outro. Em nenhum lugar a obra referenciada menciona o calvinismo como responsável pelo antinomianismo, portanto, se White pretendeu dar essa impressão, agiu de má fé, se não foi o caso, seus intérpretes é que a compreendem equivocadamente ou a distorcem deliberadamente no calor do debate.

Creio que as palavras de Charles Spurgeon, extraídas de um sermão pregado em 1859, deixam clara a posição calvinista conforme definida em Wesminster e Dort: “Quantos danos tem sido causados às almas dos homens por homens que só tem pregado uma parte, e não todo o conselho de Deus! Meu coração sangra por muitas famílias sobre as quais a doutrina antinomiana conquistou domínio... Não posso imaginar instrumento mais apto, nas mãos de satanás, para arruinar almas do que o ministro que diz aos pecadores que não é dever deles arrepender-se de seus pecados ou crer em Cristo”. Em seu The History of Dissenters, no qual retrata a época referida, James Bennett diz que o antinomianismo “não resulta do genuíno calvinismo”, como aquele que “era familiar aos escritos e práticas dos grandes reformadores”, mas do “erro que tem sido enxertado por aqueles que são mais ansiosos para abraçar certas partes do que estudar para entender o todo”.
Em seu texto, Leandro Quadro menciona outras citações feitas por Ellen White no Grande Conflito, recorrendo a John Wesley. A obra de John Wesley não tão fácil de se analisar e cada citação deve ser analisada em sua ordem no tempo, além do contexto em que foi feito. Demanda tempo e requer espaço, ambos me faltam no momento, a Providência dirá se os terei no futuro. Por ora, basta-nos concluir que a citação feita por Leandro Quadro como sendo da senhora White e contra o calvinismo não é nem uma coisa, nem outra.
Soli Deo Gloria
Fonte: Cinco Solas

quinta-feira, 14 de março de 2013

Orgulho Espiritual Oculto - por Jonathan Edwards (1703–1758)


A primeira e a pior causa de erro que prevalece nos nossos dias é o orgulho espiritual. Essa é a principal porta que o diabo usa para entrar nos corações daqueles que têm zelo pelo avanço da causa de Cristo. É a principal via de entrada de fumaça venenosa que vem do abismo para escurecer a mente e desviar o juízo. É o meio que Satanás usa para controlar cristãos e obstruir uma obra de Deus. Até que essa doença seja curada, em vão se aplicarão remédios para resolver quaisquer outras enfermidades.
O orgulho é muito mais difícil de ser discernido do que qualquer outra fonte de corrupção porque, por sua própria natureza, leva a pessoa a ter um conceito alto demais de si própria. É alguma surpresa, então, verificar que a pessoa que pensa de si acima do que deve está totalmente inconsciente desse fato? Ela pensa, pelo contrário, que a opinião que tem de si está bem fundamentada e que, portanto, não é um conceito elevado demais. Como resultado, não existe outro assunto no qual o coração esteja mais enganado e mais difícil de ser sondado. A própria natureza do orgulho é criar autoconfiança e expulsar qualquer suspeita de mal em relação a si próprio.
O orgulho toma muitas formas e manifestações e envolve o coração como as camadas de uma cebola – ao se arrancar uma camada, existe outra por baixo dela. Por isto, precisamos ter a maior vigilância imaginável sobre nossos corações com respeito a essa questão e clamar àquele que sonda as profundezas do coração para que nos auxilie. Quem confia em seu próprio coração é insensato.
Como o orgulho espiritual é mascarado por natureza, geralmente não pode ser detectado por intuição imediata como aquilo que é mesmo. É mais fácil ser identificado por seus frutos e efeitos, alguns dos quais quero mencionar junto com os frutos opostos da humildade cristã.
A pessoa espiritualmente orgulhosa sente que já está cheia de luz, não necessitando assim de instrução. Assim, terá a tendência de prontamente rejeitar a oferta de ajuda nesse sentido. Por outro lado, a pessoa humilde é como uma pequena criança que facilmente recebe instrução. É cautelosa no seu conceito de si mesma, sensível à sua grande facilidade em se desviar. Se alguém lhe sugere que está, de fato, saindo do caminho reto, mostra pronta disposição em examinar a questão e ouvir as advertências.
As pessoas orgulhosas tendem a falar dos pecados dos outros: o terrível engano dos hipócritas, a falta de vida daqueles irmãos que têm amargura, a resistência de alguns crentes à santidade. A pura humildade cristã, porém, se cala sobre os pecados dos outros ou, no máximo, fala a respeito deles com tristeza e compaixão. A pessoa espiritualmente orgulhosa critica os outros cristãos por sua falta de crescimento na graça, enquanto o crente humilde vê tanta maldade em seu próprio coração, e se preocupa tanto com isso, que não tem muita atenção para dar aos corações dos outros. Queixa-se mais de si próprio e da sua própria frieza espiritual; sua esperança genuína é que todos os outros tenham mais amor e gratidão a Deus do que ele.
As pessoas espiritualmente orgulhosas falam freqüentemente de quase tudo que percebem nos outros em termos extremamente severos e ásperos. É comum dizerem que a opinião, conduta ou atitude de outra pessoa é do diabo ou do inferno. Muitas vezes, sua crítica é direcionada não só a pessoas ímpias, mas a verdadeiros filhos de Deus e a pessoas que são seus superiores. Os humildes, entretanto, mesmo quando recebem extraordinárias descobertas da glória de Deus, sentem-se esmagados pela sua própria indignidade e impureza. Suas exortações a outros cristãos são transmitidas de forma amorosa e humilde e, ao lidar com seus irmãos e companheiros, eles procuram tratá-los com a mesma humildade e mansidão com que Cristo, que está infinitamente superior a eles, os trata.
O orgulho espiritual comumente leva as pessoas a se comportarem de modo diferente na sua aparência exterior, a assumirem um jeito diferente de falar, de se expressar ou de agir. Por outro lado, o cristão humilde – mesmo sendo firme no seu dever, permanecendo sozinho no caminho do céu ainda que o mundo inteiro o abandone – não sente prazer em ser diferente só para ser diferente. Não procura se colocar numa posição onde possa ser visto e observado como uma pessoa distinta ou especial; muito pelo contrário, dispõe-se a ser todas as coisas a todas as pessoas, a ceder aos outros, a se adaptar aos outros e a agradá-los em tudo menos no pecado.
Pessoas orgulhosas dão muita atenção a oposição e a injúrias; tendem a falar dessas coisas freqüentemente com um ar de amargura ou desprezo. A humildade cristã, em contraste, leva a pessoa a ser mais semelhante ao seu bendito Senhor, o qual, quando foi maltratado não abriu sua boca, mas se entregou em silêncio àquele que julga retamente. Para o cristão humilde, quanto mais clamoroso e furioso o mundo se manifestar contra ele, mais silencioso e quieto ficará, com exceção de quando estiver no seu quarto de oração: lá ele não ficará calado.
Um outro padrão de pessoas espiritualmente orgulhosas é comportar-se de forma a torná-las o foco de atenção. É natural que a pessoa sob a influência do orgulho tome todo o respeito que lhe é oferecido. Se outros demonstram disposição de se submeterem a ela e a cederem em deferência a ela, esta pessoa receberá tais atitudes sem constrangimento. Na verdade, ela se habituou a esperar tal tratamento e a formar uma má opinião de quem não lhe oferece aquilo que pensa merecer.
Uma pessoa sob a influência de orgulho espiritual tende mais a instruir aos outros do que a fazer perguntas. Tal pessoa naturalmente assume ar de mestre. O cristão eminentemente humilde pensa que precisa de ajuda de todo o mundo, enquanto a pessoa espiritualmente orgulhosa acha que todos precisam do que ela tem para oferecer. A humildade cristã, sentindo o peso da miséria dos outros, suplica e implora; o orgulho espiritual, em contraste, ordena e adverte com autoridade.
Assim como o orgulho espiritual leva as pessoas a assumirem muita coisa para si mesmas, de forma semelhante as induz a tratar os outros com negligência. Por outro lado, a pura humildade cristã traz a disposição de honrar a todas as pessoas. Entrar em contendas a respeito do cristianismo por vezes é desaconselhável; no entanto, devemos tomar muito cuidado para não nos recusarmos a discutir com pessoas carnais por as acharmos indignas de nossa consideração. Pelo contrário, devemos condescender a pessoas carnais da mesma forma como Cristo condescendeu a nós – a fim de estar presente conosco na nossa indocilidade e estupidez.
- por Jonathan Edwards (1703–1758)
Fonte: Monergismo

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Resenha – Em defesa da fé


por - Alderi Souza de Matos


STROBEL, Lee. Em defesa da fé. Trad. Alderi S. Matos. São Paulo: Editora Vida, 2002. 363 p.

Um dos maiores desafios enfrentados pelos cristãos é a existência de certas questões espinhosas levantadas pelos céticos que parecem pôr em cheque algumas afirmações centrais da fé cristã. Isto vem acontecendo desde os primeiros tempos da igreja, como comprovam tanto os documentos do Novo Testamento quanto os escritos dos apologistas e polemistas, os defensores intelectuais do cristianismo no 2º e no 3º séculos. O mundo contemporâneo, secularizado e pluralista, herdeiro do iluminismo e do racionalismo, continua a fazer formidáveis questionamentos à fé cristã, questionamentos esses que são um obstáculo para muitos descrentes e uma fonte de incertezas para um grande número de cristãos. Essas objeções concentram-se em torno de questões como a fidedignidade da Bíblia, a veracidade das alegações cristãs, bem como a natureza e o caráter de Deus.

O jornalista e pastor norte-americano Lee Strobel, residente em Orange County, Califórnia, resolveu examinar especificamente a questão da fé e da dúvida diante das dificuldades intelectuais e teológicas levantadas pelos críticos do cristianismo. Ele identificou oito dessas objeções mais contundentes e entrevistou um igual número de especialistas cristãos no sentido de respondê-las de maneira relevante para o homem moderno. Com esse livro, Strobel dá continuidade a uma série de obras apologéticas que começou com Em Defesa de Cristo (também publicado pela Editora Vida).

O ponto de partida de Strobel é a história de Charles Templeton, um jornalista que se converteu, abraçou o ministério pastoral e tornou-se companheiro de Billy Graham em suas primeiras campanhas evangelísticas. Pouco depois, no entanto, Templeton foi vencido pela incredulidade e abandonou as suas convicções cristãs. Eventualmente, escreveu um livro sobre suas experiências, intitulado Despedindo-se de Deus: Minhas razões para rejeitar a fé cristã. Ao ser entrevistado por Strobel, o ex-pregador afirmou que o fato específico que o levou a perder a fé em Deus foi uma fotografia publicada na revista Life. Nessa foto, tirada durante uma seca devastadora, uma mulher africana segurava nos braços o filhinho morto e olhava para o alto com uma expressão de desalento. Templeton disse que a partir daquele momento ficou difícil acreditar em um Deus amoroso e misericordioso.

Os “oito grandes” enigmas examinados por Strobel são os seguintes: (1) a existência de um Deus de amor diante da realidade da dor e do sofrimento; (2) a crença em milagres em face dos postulados da ciência; (3) o conflito entre as perspectivas da criação e da evolução; (4) o caráter de Deus à luz de passagens bíblicas em que é ordenada a morte de crianças; (5) a dificuldade de aceitar que Jesus é o único caminho para Deus quando milhões de pessoas nunca ouviram falar dele; (6) o problema do amor de Deus diante da realidade do inferno; (7) a violência e os erros da igreja cristã ao longo dos séculos; e (8) as dificuldades daqueles que crêem, mas ainda têm algumas dúvidas.

Os entrevistados foram, respectivamente, o filósofo católico Peter John Kreeft, o apologeta e filósofo William Lane Craig, o cientista texano Walter L. Bradley, o apologeta e escritor Norman L. Geisler, o conferencista indiano Ravi Zacharias, o filósofo J.P. Moreland, o historiador John D. Woodbridge e o pastor e líder cristão Lynn Anderson. Todos são professores e autores bem-conhecidos nos círculos evangélicos norte-americanos. Seis deles têm grau de Ph.D., em diferentes áreas.

Como Strobel declara, a partir da sua experiência pessoal como ex-ateu, os problemas que o interessam são as objeções não somente racionais, mas emocionais, que as pessoas levantam contra a fé, contra o próprio ato de crer. Muitas dessas pessoas chegam a ver certos aspectos atraentes no cristianismo, mas não conseguem transpor algumas barreiras que as impedem de crer. A abordagem é interessante e acessível, devido ao estilo jornalístico do autor e ao bom uso da técnica de entrevistas. Ao mesmo tempo, o livro não deixa de ser profundo e instigante, em virtude do calibre dos entrevistados, quase todos estudiosos há longo tempo dos temas que lhes foram propostos. Cada capítulo termina com uma série de perguntas para reflexão adicional e estudo em grupo.

A primeira objeção abordada, a questão do mal e do sofrimento, é reconhecidamente uma das mais difíceis de responder. O entrevistado argumenta que o poder, a onisciência e a bondade de Deus não conflitam com a existência do mal. Este não é de modo algum resultado da ação divina, mas decorre de escolhas humanas, do livre arbítrio. Não haveria verdadeira liberdade no ser humano sem a possibilidade de escolha do mal. Isso levanta uma pergunta, que deixa de ser respondida: E na eternidade, onde não mais existirá a possibilidade do mal, as pessoas não serão livres? Ao abordar a segunda objeção, a questão dos milagres, o entrevistado traça uma distinção interessante entre os milagres atribuídos a Cristo pelos evangelhos e aqueles atribuídos a Maomé pela tradição islâmica (Hadith), não pelo Alcorão. A questão mais central no que diz respeito aos milagres é a da própria existência de Deus, defendida com cinco argumentos: Deus dá sentido à origem do universo, à complexidade do universo, aos valores morais objetivos e à ressurreição, e pode ser experimentado imediatamente.

O capítulo sobre criação e evolução talvez seja o melhor de todo o livro. Um respeitado cientista, autor de muitos livros e artigos sobre o assunto, aborda com argumentos bastante pertinentes um elemento crucial que a teoria da evolução e a ciência em geral até hoje não puderam explicar – a origem da vida. As seis principais teorias sobre a chamada “evolução pré-biológica” são rebatidas de modo convincente, ao mesmo tempo em que se demonstra a única opção possível: a explicação teísta. O capítulo seguinte aborda a difícil questão das crueldades atribuídas a Deus no Antigo Testamento, o que levanta sérias indagações acerca do caráter divino. Vale lembrar que essas preocupações existiram desde a Antigüidade, como atestam os questionamentos de Márcion, no segundo século, e a predileção pelo método alegórico de interpretação bíblica, tanto pelos judeus (Filo) como pelos cristãos. Ainda que muitas histórias chocantes do Antigo Testamento não impliquem em aprovação das ações descritas, mesmo assim existem diversas passagens inquietantes, tais como 1 Samuel 15.3 e 2 Reis 2.23-24. A questão mais profunda em jogo é a própria confiabilidade da Bíblia, a base para se avaliar o caráter de Deus. São apresentados dois argumentos em prol dessa fidedignidade: a confirmação pela arqueologia e as evidências de origem divina, tais como as profecias e os milagres.

A quinta objeção diz respeito às alegações de exclusividade e superioridade feitas pelo cristianismo em relação às outras religiões. Ravi Zacharias, um indiano radicado nos Estados Unidos, lembra que outras religiões mundiais fazem a mesma reivindicação. Ele argumenta sobre a importância da ressurreição como atestado da divindade de Cristo, que é negada pelas outras religiões. Só o cristianismo responde de maneira plenamente satisfatória quatro questões fundamentais que toda religião procura elucidar: origem, significado, moralidade e destino. Quanto à questão daqueles que não ouviram de Cristo, o entrevistado levanta algumas possibilidades interessantes com base em passagens como Atos 17.26-27 e Romanos 1.20 e 2.14-15. O próximo tópico, a existência do inferno, possivelmente seja o mais difícil de todos. Segundo C. S. Lewis, “é uma das principais razões pelas quais o cristianismo é atacado como algo bárbaro e a bondade de Deus é impugnada” (O Problema do Sofrimento). O entrevistado responde a nove objeções referentes a aspectos da doutrina do inferno que parecem violar o senso humano de justiça.

A sétima objeção respondida tem a ver com as manifestações de opressão e violência na história da igreja cristã. Como grandes manchas na história do cristianismo, são citadas as Cruzadas, a Inquisição, os julgamentos de feitiçaria em Salem (EUA), a exploração de nativos por parte de missionários e o anti-semitismo. Exemplos adicionais são a opressão da mulher e a escravidão. O entrevistado observa que tais práticas, certamente lamentáveis, não depõem contra o cristianismo em si, mas são um atestado da incoerência de muitos cristãos. O espírito do cristianismo aponta na direção oposta e tem dado grandes contribuições à humanidade. O último capítulo do livro analisa a questão da dúvida religiosa, suas raízes e diferentes manifestações. A fé e a dúvida são coisas que podem coexistir. A dúvida pode ter um papel positivo, quando leva a fé a tornar-se mais consciente, mais madura. Na conclusão, o autor destaca a importância de se considerar o conjunto das evidências a favor da fé cristã, ao invés de ficar preso a uma ou outra objeção isolada.

Em Defesa da Fé é um livro valioso sobre um assunto deveras importante. Os diversos erros de revisão felizmente não prejudicam o entendimento da argumentação. Em certos pontos os argumentos parecem forçados e certamente só serão aceitos por quem já crê de antemão. Todavia, existe muito material de grande valor apologético, vazado em linguagem atraente e acessível. Talvez o maior senão do livro seja a sua ênfase arminiana na fé como simplesmente “vontade de crer”, deixando de levar em conta a complexidade do tema e a atuação misteriosa e imprescindível da soberania de Deus. No seu todo, é uma obra que pode trazer benefícios inestimáveis tanto para cristãos quanto para pessoas que buscam sinceramente a verdade sobre a fé cristã.
Fonte: Mackenzie

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

A Reforma da Igreja em Harmonia com as Escrituras

Por Johannes G. Vos
A reforma da igreja em harmonia com as Escrituras está sempre incompleta na terra. Ecclesia reformata reformanda est (“a igreja, tendo sido reformada, ainda precisa ser reformada”). Isto resulta do fato de que as Escrituras são um padrão perfeito e absoluto, enquanto a igreja, em qualquer ponto de sua história na terra, ainda é imperfeita, envolvida em pecado e erro.
Este processo de reforma tem de ser contínuo até ao fim do mundo. Em nenhum ponto, a igreja pode parar e dizer: “Cheguei ao final. Até aqui e não mais adiante”. Somente no céu a igreja triunfante poderá dizer isso.
No processo de reforma, existem certos estágios históricos e certos marcos de progresso alcançado. Por exemplo, os importantes credos e confissões históricas são tais marcos de progresso. A Confissão de Fé de Westminster, por exemplo, marca o verdadeiro progresso da reforma da igreja até ao tempo em que a confissão foi elaborada.
Nunca podemos considerar este processo como completo em nossos próprios dias ou em qualquer ponto da História da Igreja na terra. Temos sempre de esquecer as coisas que ficam para trás e avançar para as que estão no futuro. Temos sempre de nos esforçar para conquistar aquilo para o que fomos conquistados por Cristo. A doutrina da igreja, a adoração, o governo, a disciplina, as atividades missionárias, as instituições educacionais, as publicações e a vida prática — todas estas coisas têm de ser progressivamente reformadas em harmonia com as Escrituras.
A reforma sempre tem sido uma realização progressiva e, necessariamente, tem de ser assim. Os zelosos tentam empreender a reforma de uma única vez, mas apenas batem a cabeça contra um muro de pedras. Deus age por meio de um processo histórico — um processo contínuo e gradual. E temos de nos conformar à maneira de agir dEle.
A reforma bíblica da igreja é o fruto de submissão ao Espírito Santo falando nas Escrituras.
Não se exige somente o avanço no estudo das Escrituras, um avanço que sobrepuja os marcos do passado, mas também uma auto-análise perscrutadora por parte da igreja. Os padrões secundários da igreja têm sempre de ser sujeitados à avaliação e reavaliação, à luz das Escrituras. Isto está implícito em nossa confissão de que somente as Escrituras são infalíveis. Se esta confissão é verdadeira, todas as outras coisas têm de ser constantemente examinadas e reexaminadas pelas Escrituras.
Não somente os padrões oficiais da igreja, mas também a sua vida, os seus programas, as suas atividades, as suas instituições e as suas publicações têm de passar pela autocrítica perscrutadora com base nas Escrituras. Estas coisas têm de ser testadas sempre à luz da Palavra de Deus. Essa autocrítica, por parte da igreja, é o correlativo do auto-exame ao qual Deus, em sua Palavra, exorta todo crente.
Essa autocrítica, por parte da igreja, é árdua. Exige esforço, inteligência, aprendizado, sacrifício, muita humildade, auto-renúncia e honestidade absoluta. Requer lealdade às Escrituras, uma lealdade que se dispõe a fazer tudo o que for preciso para ser fiel à Palavra de Deus — uma lealdade verdadeiramente heróica e radical para com as Escrituras.
Essa autocrítica, por parte da igreja, pode ser embaraçadora e dolorosa. Pode significar que a igreja, assim como o Cristão, em O Peregrino, escrito por John Bunyan, pode se achar na Campina do Caminho Errado e ter de refazer seus passos, dolorosa e humildemente, até que esteja de volta ao Caminho do Rei. Essa autocrítica, por parte da igreja, pode ser devastadora para os interesses e projetos especiais de alguns crentes ou grupos da igreja. Pode demonstrar que certas características dos padrões, da vida ou do programa da igreja não estão em completa harmonia com a Palavra de Deus; e, portanto, devem ser reconsiderados e colocados em harmonia com as Escrituras.

Por estas e outras razões similares, a autocrítica, por parte da igreja, é freqüentemente negligenciada e, muitas vezes, resistida com vigor. Aqueles que a defendem ou procuram vê-la realizada provavelmente serão vistos como extremistas, fanáticos, entusiastas, visionários, criadores de problemas e coisas semelhantes. No entanto, foi por meio dessa autocrítica que as reformas do passado se realizaram. Homens como Lutero, Calvino, Knox, Melville, Cameron e Renwick estavam preocupados apenas com a opinião de Deus em sua Palavra. Eles não foram impedidos pelas opiniões e atitudes adversas dos homens.
Quando a igreja ousou realmente contemplar-se no espelho da Palavra de Deus, com sinceridade mortal, ela esteve em seu máximo e influenciou o mundo. Ela seguiu adiante com novo ânimo e vigor. Por outro lado, quando a igreja hesitou ou se recusou a contemplar-se atentamente no espelho da Palavra de Deus, ela se tornou fraca, estagnada, decadente, ineficaz e sem influência.
A autocrítica denominacional constante, com base nas Escrituras, é um dever de toda igreja. Mas isto é realmente levado a sério? Quanto zelo, quanta preocupação — também digo, quanta tolerância — existe hoje em relação à autocrítica?
Em toda igreja, existe uma tendência constante de considerar o presente estado das coisas (o status quo) como normal e correto. Assim, o que, na realidade, é um simples costume passa a ter a força e a influência de um princípio, enquanto os verdadeiros princípios chegam a ser considerados como se fossem meras convenções ou costumes humanos, possuindo apenas autoridade resultante de uso e de aprovação popular. A sanção outorgada pelo uso é considerada como suficiente para estabelecer um assunto como legal, correto ou necessário. E, de modo inverso, a falta de uso é considerada como suficiente para provar que um assunto é errado ou impróprio. Este tipo de estagnação, esta atitude de considerar o status quo como normal, fecha a porta contra todo o verdadeiro progresso na reforma da igreja, visto que o status quo é sempre pecaminoso. Sempre fica aquém das exigências da Palavra de Deus. É sempre menor do que aquilo que Deus realmente exige da igreja. Uma vez que o status quo é pecaminoso, ele nunca pode ser considerado com complacência; e, menos ainda, considerado como o ideal para a igreja. É um pecado tornar absoluto o status quo.
Sempre precisamos nos arrepender do status quo. Não importa o quão excelente ele seja, ainda é pecaminoso e precisamos nos arrepender dele. Considerá-locom complacência é um dos maiores pecados da igreja contemporânea — um pecado que entristece o Espírito Santo, um pecado que, com certeza, impede a igreja de realizar seu verdadeiro e correto progresso de reformar-se em harmonia com as Escrituras.

Uma igreja dominada por esta idéia não pode avançar realmente. Na verdade, ela pode até cair em declínio e apostasia. No máximo, ela se moverá em círculo fixo, sempre retornando ao ponto do qual havia partido.

Deus nos chama a buscar a reforma da igreja em nossos dias.
As igrejas, em sua maioria, se moveram em um círculo fixo através de sua história passada. Podemos dizer vigorosamente que elas têm se movido em um ciclo vicioso. O padrão tem sido este: uma dormência seguida por um avivamento, seguido por uma dormência... O verdadeiro progresso ainda não se realizou. Parece que o melhor a ser feito é descobrir como sair de um abismo após outro. Nada é mais prevalecente do que este tipo de estagnação na igreja. Nada é mais difícil do que conseguir realmente avaliar e reformar qualquer aspecto da estrutura e das atividades da igreja à luz da Palavra de Deus.
O verdadeiro progresso significa edificar sobre os alicerces estabelecidos no passado; mas não significa ser dominado pelas mãos letais do erro e das imperfeições do passado. Existe somente um critério legítimo para avaliarmos o verdadeiro progresso; este critério é a própria Palavra de Deus. A verdadeira reforma da igreja é uma reforma alicerçada nas Escrituras. É uma reforma que ocorre dentro dos limites das Escrituras, não uma reforma que vai além das Escrituras.
As instituições, as agências, as publicações da igreja refletem opiniões diferentes, daquelas que ocorrem em nossos dias na igreja? Ou elas têm de assumir sua posição junto aos padrões oficiais da igreja e manter essa postura ao confrontar o público? Ou devem ser os pioneiros na autocrítica denominacional com base nas Escrituras? Elas têm de abrir um novo caminho e seguir para um novo território à luz da Palavra de Deus?
Estas são perguntas sérias e difíceis. A tendência é deixá-las de lado e ignorá-las. Elas raramente são enfrentadas. A tendência é considerarmos o status quo como normal. Ou, se não pensamos assim sobre o status quo do presente, consideramos como normais, em algum grau, as realizações do passado. Se pudéssemos tão-somente retornar às coisas como elas eram nos “excelentes dias de outrora” e manter aquele padrão, dizem alguns, tudo seria ótimo.
Seria ótimo realmente? O que aconteceu? Não estamos naquela época. Como podemos nos desculpar por havermos falhado em ir além de nossos antepassados no entendimento das Escrituras? Como podemos dizer que a reforma da igreja foi completada em 1560, em 1638 ou, ainda, em 1950? O que temos feito? Nosso talento foi escondido em um guardanapo?
Não é difícil admitir que na igreja existem alguns males que precisam de correção. A tendência, porém, é dizermos que, se pudéssemos apenas retornar aos fundamentos corretos de uma ou duas gerações passadas, tudo seria como realmente deve ser. O que mais alguém perguntaria? Poderíamos manter aquela posição por todo o tempo vindouro. Mas isso não seria cumprir os deveres que Deus nos outorgou. Nossos antepassados reformaram a igreja em seu tempo; Deus nos chama a reformá-la em nosso tempo. Não podemos descansar em nossos lauréis. Temos de agir por nós mesmos, pela fé, alicerçados na Palavra de Deus.
A verdadeira reforma busca a verdade e a honra de Deus acima de todas as outras considerações.
Vivemos em uma era pragmática, impaciente com a verdade, bastante interessada em resultados práticos. É uma época de impaciência com aqueles que consideram a verdade acima dos resultados. Nossa era quer resultados e está bastante disposta a crer que figos nascem em cardos, se é que pensa ver algum figo.
Quando alguém procura trazer alguma característica da igreja ao julgamento crítico da Palavra de Deus, já ouvi a objeção de que o tempo não é oportuno. “Você está certo”, alguns dizem, “mas este é o tempo oportuno para você trazer este assunto à baila?” Devemos compreender que a verdade é sempre oportuna e correta; e, se esperarmos um tempo oportuno para a trazermos à baila, esse tempo pode nunca chegar. Essa época mais conveniente pode nunca chegar. Sempre haverá uma razão para sermos instados a não realizarmos a reforma da igreja em harmonia com as Escrituras. Deus é o Deus da verdade. Deus é luz, e não há nEle treva nenhuma. Cristo é o Rei do reino da verdade. Para isto Ele veio ao mundo: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é nascido da verdade ouve a voz de Cristo.
A excessiva prontidão de aceitar o status quo como normal é um dos grandes obstáculos no caminho da verdadeira reforma e progresso da igreja em nossos dias. Esta atitude é pecaminosa porque está cega para a verdadeira pecaminosidade do status quo. Falha em reconhecer que o status quo é algo do que sempre temos de nos arrepender, algo que sempre precisa ser perdoado pela graça divina e sempre precisa ser reformado pela igreja, na terra. Esta atitude falha em compreender a verdade da afirmação de Agostinho: “Todo bem inferior envolve um elemento de pecado”.
No fundo, esta aceitação complacente do status quo como normal procede de uma idéia errada a respeito de Deus, uma idéia que falha em reconhecer a santidade e a pureza de Deus, que falha em compreender o absoluto caráter das Escrituras como o padrão da igreja.
Colocar a honra e a verdade de Deus em primeiro lugar, acima de quaisquer outras considerações, exige grande consagração moral. Neste assunto, aquilo que é verdadeiro para um indivíduo também é verdadeiro para a igreja: quem perder a sua vida por amor a Cristo, esse a achará.

Fonte: Editora Fiel


quinta-feira, 1 de novembro de 2012

A Necessidade do Novo Nascimento (sermão pregado por Martinho Lutero)


Sermão pregado pelo Reformador Martinho Lutero, para o Domingo da Santíssima Trindade de 11 de junho de 1536:

"Havia um homem dos fariseus que se chamava Nicodemos, um principal entre os judeus. Este veio a Jesus de noite e lhe disse: “Rabi, sabemos que és mestre vindo de Deus, porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes se Deus não estiver com ele. Respondeu-lhe Jesus: “Em verdade, em verdade te digo se o homem não nascer de novo, não poderá ver o reino de Deus”. Nicodemos lhe disse: “Como pode um homem nascer de novo sendo velho? Pode por acaso entrar uma segunda vez no ventre de sua mãe e nascer?”Respondeu-lhe Jesus: “Em verdade, em verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito não poderá entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne; o que é nascido do Espírito é Espírito. Não te maravilhes do que eu te disse: é necessário nascer de novo. O vento sopra onde quer e se ouve o seu som; mas ninguém sabe de onde vem e nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito”. Perguntou-lhe Nicodemos: “ Como pode acontecer isso?” Respondeu-lhe Jesus: “Tu és mestre de Israel  e não sabe disso? Em verdade, em verdade te digo que aquilo sabemos falamos, e aquilo que temos visto testificamos, mas vós não recebeis o nosso testemunho. Se eu vos tenho dito coisas terrenas e não acreditastes, como acreditareis se eu vos falar das celestiais? Ninguém subiu ao céu, senão aquele que de lá desceu, o Filho do Homem, que está no céu. E assim como Moisés levantou a serpente do deserto, é necessário que o filho do homem seja levantado para que todo aquele que Nele crer, não se perda, mas tenha vida eterna. Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu filho unigênito para que todo aquele que Nele crer não se perda, mas tenha vida eterna”. João 3:1-16

COMO ALCANÇAR A SALVAÇÃO, a pergunta principal da humanidade

Hoje ainda não lhes foi explicado o Evangelho. Escreve o evangelista São João que certo fariseu de nome Nicodemos veio ao Senhor de noite e teve com ele uma conversa, e Cristo, de sua parte, lhe pregou um sermão para aquele homem piedoso que realmente ele não sabia que fazer com ele: quanto mais o ouvia, menos o entendia.

Sobre essa historia se prega todo ano. Mas como hoje o momento novamente é propício, falaremos mais uma vez sobre ela. Desde que o mundo existe, os sábios que existem nele se perguntam: “De que modo se pode alcançar a justiça e a bem-aventurança?” Essa questão se discute desde quando há homens na terra, e continuará sendo discutida até que o mundo chegue a seu fim. Ainda nos nossos dias atuais pode-se ver com quanto ardor debatemos esse assunto. Todos crêem estar em condições de emitir um juízo, porém, com seu juízo, revelam sua ignorância. Esta mesma questão, como nos informa o Evangelho para o dia de hoje, Cristo a tratou com um homem que, falando nos términos da lei judaica, era uma pessoa corretíssima e muito instruída.

Aquele homem quer discutir sobre aquilo que devemos fazer e como devemos viver para sermos salvos, e espera que Cristo lhe dê uma resposta. “Porque tu” ele diz, “és mestre vindo de Deus, pois os sinais que tu fazes vão além da capacidade de qualquer ser humano. Nós os fariseus ensinamos, no campo do espiritual, a lei de Moisés. Opinas tu que há algo melhor que possa nos recomendar?” Surge assim na discussão entre ambos a pergunta sobre as obras, ou seja, a vida perfeita – a pergunta que inquieta aos homens de todas as gerações.

I. O que tenta alcançar a salvação pelos caminhos das obras, não a alcançará

Já os antigos romanos meditavam com muita seriedade sobre qual era o caminho reto a seguir, acerca de como, por exemplo, se devia lidar corretamente com a casa e a família. Seus interesses se dirigiam diante de toda a exata determinação do que exige a “justiça”. Mas com isso se meteram em um problema que não tem solução, como eles mesmos tiveram que admitir: “excesso de justiça, excesso de injustiça.” Por qual motivo? Porque a “justiça” no sentido estrito da palavra está fora de nosso alcance. Por isso que se tem que buscar o caminho do meio e adaptar-se às circunstâncias. Nesse sentido também se costuma dizer: “acertou como os atiradores quando acertam o alvo”, quer dizer, não graças a sua pontaria, senão graças a um impacto fortuito. Pois um bom atirador e até um eventual ganhador é também aquele que chegou mais próximo do alvo. Assim o reconhecem até os juristas. Tem que se dar por satisfeitos se com seu governo e administração da coisa pública conseguem que ninguém inflija a outro injustiças muito grosseiras, ainda quando seja impossível acertar e aplicar rigidamente a justiça em sua forma pura. Porém quando chega ao poder um desses desorientados, só causa alvoroço, distúrbios e dissensões.

Assim toda autoridade secular tem que se ater ao que é possível. Não obstante, a razão gostaria de elevar a salvação ou a uma ordem política perfeita pela via da injustiça. Porém tal coisa é impossível. Que fazer então? Quase se diria que acontece como com aquele que queria subir uma alta montanha e por não poder fazer, exclamou: “Pois bem, ficarei aqui”. No entanto, Cristo nos diz: “Se vossa justiça não for maior que a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos céus” (Mateus 5:20). Ali no sermão do monte o Senhor explica qual o verdadeiro cumprimento da lei, e o que significa acertar o alvo: não se irar, nem mesmo no recôndito do coração; não cobiçar nem mesmo em pensamentos a mulher ou os bens do nosso próximo. Ali se coloca diante dos nossos olhos a justiça mais perfeita. E, apesar de tudo os homens acreditam poder alcançá-la mediante o cumprimento da lei. “Não queremos nem pretendemos”, dizem, “acertar exatamente o alvo”; se o conseguem com certa aproximação, se têm por desculpados. Nós, porém, atentamos para o que nos ensina Cristo: “Ninguém pode ver o reino de Deus ao menos que tenha acertado o alvo”. E no Apocalipse lemos: “Neste tabernáculo não entrará nenhum imundo”. Que devemos fazer pois? Também exclamaremos: “Temos que ficar aqui embaixo, não podemos subir a montanha”?

Tampouco Nicodemos sabe outra coisa que esta: “Eu sou uma pessoa correta, vivo piedosamente conforme a lei e transito pelo caminho que conduz ao céu”. E agora ele quer que esse Mestre lhe expresse sua aprovação ou desaprovação – ainda que não gostaria de pensar nesta última opção, senão espera que o Senhor lhe responda: “Sim, Nicodemos, és perfeito, e ainda: Já és bem-aventurado e os demais entrariam no reino dos céus se fizessem como tu”. Porém, ocorre justamente o contrário: Cristo o bota a correr do reino dos céus: “Por certo, és um homem bom. Porém se não nasces de novo, tua justiça não te servirá de nada.” O “nascer de novo”: esta é a justiça na qual insistimos tanto em nossa pregação. Ou seja: Cristo não tem a intenção de rechaçar a lei, antes quer que ela seja cumprida. “Porém”, diz “a forma como  vós a cumpríeis não tem validade. Cumpríeis a lei só em vossa imaginação, mas não na realidade. Os Dez Mandamentos são perfeitos, e quero que os cumpra. Quem quiser entrar no céu tem que cumpri-los. Porém, com o vosso conceito do ‘direito’ e com a vossa justiça, não os estais cumprindo”. Não temos outra justiça melhor do que a que resultaria do meu cumprimento de tudo o que se manda nas duas tábuas da lei de Moisés. Então seríamos “justos” – porém só justos conforme a justiça dos fariseus, e não conforme a justiça exigida pela lei.

II.  Só a regeneração nos torna participantes da salvação eterna

É-nos dito, pois: “lhe é necessário nascer pela segunda vez”. Para Nicodemos isso é chocante. Ele pensa em outras leis, alem do ponto das leis mosaicas, tais como as que achamos no papado e no judaísmo farisaico; espera que Cristo estabeleça artigos novos, leis novas, todo um código novo. Porém, nada disso: Cristo não diz uma palavra quanto a leis e estatutos novos. “Pois o que possuis em matéria de leis já é mais do que podeis cumprir. Eu, em troca, os prego assim: Vós, vós mesmos precisam chegar ser outras pessoas. Eu não falo de fazer ou não fazer, senão de chegar a ser. Tu tens que chegar a ser outro homem, tens que nascer de novo. Isso será então a justiça que acerta o alvo, a justiça sem mancha nem ruga, a justiça que conseguirá entrar no céu”. Para Nicodemos, ao ouvir Jesus falar dessa maneira, lhe vem certas duvidas. Essas são palavras novas para ele. “Entrar eu pela segunda vez no ventre de minha mãe? Tolice!” Porém a essas tolices Cristo acrescenta outras piores: “não te digo que tenhas de nascer de novo de pai e mãe humanos, senão da água e do Espírito Santo”. Agora, Nicodemos fica totalmente confundido. “Que homem e mulher são esses: água e Espírito?” E como se ainda não fosse suficiente, Cristo lhe pergunta: “Tu és mestre de Israel e não sabes disso?”, o que soa como zombaria manifesta. E sem dúvida, Cristo tem que falar assim porque o assunto é totalmente novo para Nicodemos. Para explicá-lo Cristo recorre a uma ilustração como se quisesse dizer a Nicodemos: “queres que eu desenhe para que tu entendas? Digo-te porém: se não podes captar com a razão, capta-a com a fé. Pois se não acreditaste quando te falei coisas terrenas, como crerás se eu te falasse das coisas espirituais? Nós falamos o que sabemos, e o que sabemos é a verdade e vós não acreditais Pois bem: se alguém não quer crer, deixe-se!”

A nossa pregação, iniciada naquelas condições por Cristo, se apoia exclusivamente na fé. Só com a fé se pode compreender da “regeneração pela água e pelo Espírito”. O Espírito é o homem e a água a mulher. O que isso implica, não o podes medir com a tua razão. Daí o tema que pregamos seja artigo de boas obras ou de fé. E já os papistas aprenderam algo de nós ao dizer que com a fé e a graça começa a vida verdadeiramente cristã. Antes só se falava da missa privada e da invocação dos santos; agora, em troca, dizem que a fé, efetivamente, salva, porém não só a fé, senão a fé em cooperação com nossas obras. E essa cooperação, apóiam, é imprescindível. E a nós criticam duramente afirmando que proibimos as  obras e induzimos os homens à preguiça. Todavia lhes falta bastante para serem tão piedosos e estarem tão próximos da verdade como Nicodemos. Nós nunca proibimos as boas obras; mais ainda: se dizemos algo a respeito das boas obras, nossa própria gente fica logo com raiva, o qual é um claro sinal de que realmente pregamos sobre esse tema.

E apesar disso os papistas seguem blasfemando de nós. Eles ensinam: “as boas obras têm quer vir com a ajuda da fé – vãs palavras que demonstram que esses mestres não têm noção do que é fé, boas obras, nascer do Espírito, nascer de Deus. É por isso que é necessário que estudemos com cuidado o nosso presente texto (João 3:5) e outros iguais. Aqui se fala de “nascer de novo”, não de “fazer algo novo”. Primeiro deves plantar uma arvore, e logo terás também os frutos. Segundo seja boa ou mal a arvore, serão também bons ou maus os frutos. O mesmo ocorre aqui. Nós chamamos um novo nascimento, quer dizer, uma nova maneira de ser, uma nova pessoa, não somente um novo vestido ou novas obras. Quando eu era monge, minha vestimenta era distinta e também minhas obras eram; as sete horas para as orações, a missa, o crisma, o celibato – todas essas eram outras obras, muito dessemelhantes de minhas obras anteriores. Porém a simples mudança das obras não é o que vale; que mude a pessoa, que mudem os pensamentos e o ânimo: esse é o novo nascimento. Portanto não se pode sobrepor as obras à fé. Em que uma criança contribui para que seja concebida e venha à luz? Isso é obra dos pais; a criança não faz nada para que suas perninhas e todos os seus membros cresçam; não é  parte ativa nesse processo de crescimento, senão parte meramente passiva. Qual foi, nesse sentido, a nossa contribuição? Onde estão as obras cooperantes? Queria saber então de onde vem essa insistência de que se deve agregar também obras , e logo obras próprias nossas!

É verdade: a mãe leva a criatura em suas entranhas e lhe dá o calor materno; no entanto, não é obra dela que essa criatura se origine. De igual maneira quem pregamos e batizamos somos nós, no entanto, a palavra e o batismo não são nossos; somente pomos à disposição nossa boca e nossas mãos. Na realidade a palavra e o batismo são de Deus, no entanto somos chamados colaboradores de Deus (1 Coríntios 3:9). É, por certo, uma colaboração bastante modesta a nossa. Não que contribuamos com obra ou a palavra; o único com que contribuo ao batizar e pregar é com a voz, os dedos, a boca. Assim, na geração de uma criança, o pai e a mãe só contribuem com a carne e o sangue como fatores seus; a criatura concebida não contribui absolutamente em nada, senão que “se deixa criar” por Deus todos os seus membros, e a mãe a leva em seu seio. Há alguma razão então para que eu retire a honra de Deus e diga que eu mesmo me gerei e que minha própria atuação contribuiu para que eu nascesse? Isso não significaria um agravo a Deus? Por acaso não somos chamados seus filhos, obras de suas mãos? Se é verdade que as obras colaboram na regeneração, vejo-me obrigado também a achar que eu colaborei com Deus – e isso é uma blasfêmia contra Ele. Mas se é verdade que eu sou nascido de novo, como diz Cristo, não tenho que colaborar com nada, senão que tenho que permanecer quieto e passivo para aquele que é meu Pai e Criador me faça nascer de novo como filho seu. Nesse sentido o apostolo Paulo declara que “nós somos uma nova criação, criados em Cristo para boas obras”. Como se vê, Paulo não se esquece das boas obras, mas as menciona não por que tenham contribuído em algo, não por que sejam elas que produzem a nova criação, mas “para que andássemos nelas”. Se é certo que minhas próprias obras contribuem para que eu seja uma nova criação, bem posso me gloriar de ser meu próprio Deus; porque o criar é obra exclusiva de Deus. Se eu colaboro, então Deus não é meu único Deus, senão que eu também o sou. Por outro lado, se Ele é o único, não o posso ser eu também, como se afirma muito claramente no Salmo: “Ele nos fez e não nós a nós mesmos; somos seu povo e ovelhas de seu pasto”. E não obstante, certa gente incorre em tremenda tolice de sustentar que a fé cria homens novos, mas com a ajuda das obras. Mas precisa de toda lógica dizer que eu me crio a mim mesmo e sou Deus junto com Deus, de modo que Ele me tem a seu lado como um Deus adjunto. Assim como eu não me formei a mim mesmo no corpo de minha mãe, senão que foi Deus quem me formou, valendo-se dos meus membros e do calor de minha mãe, assim tampouco na regeneração somos convencidos mediante nossas próprias forças e obras, senão unicamente pelas mãos e o Espírito de Deus. Em consequência, é ilícito acrescentar obras à fé; do contrário, não é Deus só o que me cria, senão que eu sou simultaneamente com ele meu próprio criador. Ao fogo do inferno com um criador que se cria a si mesmo! A Escritura me chama de uma nova criação de Deus e, não obstante, eu haveria de atribuir a nova criação a mim mesmo? De esse modo eu seria criação e criador, obra e obrador em uma mesma pessoa. A toda luz, esses são pensamentos diabólicos e ensinos de homens cegos. Devemos observar estritamente ao que aqui nos ensina o evangelista São João. Também Paulo nos chama “novas criaturas”. Da mesma maneira, pois, como não contribuo para meu nascimento corporal e pela minha concepção, senão que sou parte meramente passiva e ‘me faço’ gerar e criar, da mesma maneira tampouco as obras contribuem em nada para que o homem seja regenerado. Se não for assim, Deus já não será apenas Deus, senão que nós seremos Deus junto com Ele e seremos nossos próprios progenitores. Mas quando a criatura já está gerada, e quando a criancinha já está formada no seio materno com todos seus membros, a mãe diz: “Sinto que o nenezinho faz as obras que em seu estado pode fazer”. Porem, só o já criado dá esses sinais de sua existência, e só quando foi dado à luz move seus membros, e fica com vida, aprende a caminhar e a cantar. Mas se não tivesse sido criada previamente, agora não se moveria.

III. O regenerado se manifesta como crente mediante a prática de boas obras.

Nossa pregação quanto à nova criação é, pois, uma vez que fomos regenerados, devemos andar em boas obras. Nesse sentido fazemos algo: pregamos; aqueles, todavia, que são convertidos não fazem nada para chegar a sê-lo, já que somos criação e obra de Deus, “criados para que andássemos em boas obras” (Efésios 2:10). Essas palavras nos falam com inteira claridade. A semelhança com uma criatura humana é evidente. A criatura deve se separar do corpo materno; antes de estar completamente formada, não contribui em nada para esse fato. Por que Deus a beneficiou de membros? Para se mover; uma vez nascida deve caminhar, ficar de pé, comer, beber, trabalhar, mandar, pois para isso nasceu. Se não fizesse nada, seria um tronco ou uma pedra. Porém deve fazer algo, para isso foi criada. A isso se refere Cristo quando disse ao fariseu Nicodemos: “Todos vós quereis ser vossos próprios criadores. Possuíeis a lei de Moisés e esforçai-vos para cumpri-la. Porem não obtereis êxito, uma vez que ainda não nascestes de novo; não possuíeis o Espírito Santo. Por conseguinte todas as vossas obras são obras do velho homem. Podeis, por exemplo, construir uma casa ou fabricar um sapato, porém tais obras não têm nada haver com o céu. Não são obras que conferem justiça a quem as faz. Também os gentios são capazes de fazê-las. Ademais trazeis oferendas, circuncidais a vossos filhos, usais as vestiduras sagradas – também isso está ao alcance de qualquer pagão.  Por isso digo que são obras do homem velho, nascido uma só vez, a saber, do seio de sua mãe. Mas se quereis fazer obras que sejam de valor diante de Deus e que tragam proveito ao próximo, precisais nascer de novo. Vós por sua vez acreditam que o fazer obras que exteriormente parecem ser boas já está assegurada a vossa entrada no céu, ainda mesmo o coração não se achando no estado devido. Porem não façais as coisas ao contrário, não comeceis pelas obras!”

Também os papistas são da opinião de que se pode merecer o céu com suas obras que acompanham a graça. É um engano. As boas obras não podem ajudar de nenhuma forma, nem como obras que precedem a graça, nem como obras que lhe correm paralelas, nem tampouco como obras que seguem a graça, senão que tudo tem que proceder do Espírito Santo e da água. “No lugar de pai e mãe vos darei água e o Espírito Santo”, reza a pregação de Cristo. Onde isso é assim, posso dizer: “minhas próprias obras não me criaram, nem me geraram como nova criação, nem tampouco poderão fazê-lo, posto que fui criado e gerado da água e do Espírito”. Também resulta agora fácil provar e julgar os espíritos fanáticos. Pois o que nasceu, o que já foi feito e criado, não tem necessidade de ser feito e criado. Como podem dizer então que as obras subsequentes à graça me geram e me criam? Fazer boas obras é necessário; correto – porém não para chegar a ser por meio delas uma nova criação. Portanto há de se diferenciar entre fé e obras; assim, aqui o Senhor nos ensina. As obras feitas antes da fé são condenadas como pecado. Em contrapartida, as obras feitas por quem já tem fé são obras preciosas e boas. Todavia, tampouco essas servem para nos converter em homens justos, senão para louvar e glorificar a nosso Pai que está nos céus (Mateus 5:16) e para causar alegria aos anjos. Pois quem por meio de boas obras e de uma pregação frutífera honra ao Pai, receberá também dele a recompensa correspondente. Se não andas em boas obras, tampouco nasceu ainda para elas (Efésios 2:10).

Onde se ensina e se vive dessa maneira, a verdade aqui ensinada por Cristo permanece vigente em toda a pureza. Cristo diz que temos que nascer, Paulo reforça que temos que ser criados por Deus. Falando em termos de comparação com uma criatura: a criatura não se gera nem se faz nascer a si mesma, senão que depois de ser criada pode fazer obras. Analogamente, a árvore frutífera depois de plantada dá frutos. Não se diz: “Se não tiver peras na árvore, essa não é uma árvore”, senão o inverso. Por isso cresce a pereira, para que dê peras, para glória e louvor de Deus o Criador, e para que nós as comamos. Assim, a obra de Deus é a que precede, e a nossa obra é a que segue. Igualmente: se não existisse ferreiro, não existiria machado, pois para que machado corte, previamente precisa ser fabricado. Só um perfeito idiota poderia dizer: “Faz-me um machado que colabore na sua fabricação, de maneira que mediante seu despedaçar e cortar se transforme em machado”. Primeiro se fabrica o machado, e só então se pode empregá-lo nos trabalhos aos quais a ele se destinam.

Sobre esse tema se discute de modo por demais obstinado desde os primórdios da humanidade. E esse é o nosso ensino no qual insistimos com toda energia, afim de que conserve o lugar correspondente na igreja e para evitar que penetrem nela pessoas que atribuem um efeito também às obras precedentes ou concomitantes. Primeiro deve estar a criação, o nascimento: logo pode seguir a obra. Nicodemos não pode compreender isso porque ele vive na crença equivocada de que obterá êxito para entrar no céu graças as suas obras precedentes. Cristo se opõe a ele com um sonoro NÃO: “o que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus”. Todos aqueles que ensinam algo que contrarie esse artigo são falsos mestres. Nós, todavia, cremos e damos graças a Deus pelo fato de que ao fim foi trago a luz e posto ao conhecimento de todos qual é o verdadeiro caminho da vida: “Faz com que eu seja regenerado sem a colaboração de nenhuma obra minha, mas apenas pela palavra e pela fé”. Se tal é o caso, sou filho de Deus, tenho livre acesso a casa de meu Pai, e tudo quanto faço é bom e aceito diante de seus olhos. Se meu pé escorrega, Ele me castiga.  Se eu sou uma arvore boa, levo frutos bons. Se a árvore é tomada por vermes nocivos, o Pai os extermina. Se eu sou um bom machado, sirvo para cortar; se no machado se produz uma falha, também esse mal poderá ser sanado pelo Pai. Por isso vós os fariseus estais muito distantes do alvo com vossas obras precedentes; porque dessas resulta não mais que uma justiça válida diante dos olhos do mundo e para ela vale o que acabo de dizer quanto ao atirador. A justiça proveniente da fé acerta o alvo: aponta ao centro mesmo e penetra até a vida eterna – não por nossos próprios meios, senão em união com aquele que é o Mediador, do qual se fala na parte final do evangelho (João 3:14 e similares). Fomos criados por Ele e somos recriados por Ele; por meio Dele somos uma criação perfeita, apesar de ainda não estarmos livres de faltas e debilidades.

Isso se chama falar de forma cristã sobre a regeneração, da qual os papistas, os turcos e os judeus não têm o menor conhecimento. Estou seguro, portanto, que no Concílio[1] dos papistas rejeitarão esse artigo, já que a norma deles é julgar a obra de Deus segundo eles mesmos a entendem. Cristo, porém, sustenta invariavelmente: “O que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus”. É preciso, pois, deixar de lado os pensamentos próprios, a sabedoria própria, as opiniões próprias e ouvir somente a palavra por meio da qual é criado em ti um coração novo sem a tua contribuição, como o novo ser no corpo da mãe. Este texto soluciona a questão que se vem debatendo no mundo inteiro sobre como é possível uma vida bem-aventurada e feliz. Não há outro meio que a justiça efetuada pela regeneração não atinja o alvo.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Reforma Protestante


Por - Denis Monteiro
Estamos no mês da comemoração da Reforma Protestante e temos que relembrar as obras feitas pelos reformadores e entre os mais conhecidos, Lutero e Calvino.
Em por menores, os dois não só lutaram contra as heresias do romanismo e dos libertinos, mas também apoiaram que a Igreja seja parceira do Estado e que a Igreja interaja com a Escola, dando-lhes fundamentos bíblicos doutrinários para que haja uma sociedade conhecedora de Deus e filhos em escolas que aprendam sobre o Deus soberano. Como disse Calvino, Deus por intermédio destes ensinos pode despertar o pecador eleito para o arrependimento.
Mas ao passar dos anos a Igreja, se assim pode se chamar, voltou as práticas romanistas mas com outro rotulo e se desprendendo do Estado e das escolas, dizendo eles, que são uniões demoníacas e que não agradam a Deus, Igreja é Igreja e Estado é Estado e cada um no seu quadrado (me desculpem do termo usado).
Hoje, quase já não há mais, igrejas reformadas interessada que todo o mundo siga a Palavra de Deus, mesmo não sendo salvos. Mas há hoje, e muito, igrejas reclamantes que não têm temor de Deus e não leem a Santa Palavra de Deus e que não percebem o agir soberano de Deus por intermédio de governadores e reis. Acorda Igreja REFORMA acorda Igreja do Senhor!



quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Será que estou escandalizando?


Por - Igor Campos
"Você não deve falar de certas coisas neste lugar, vai causar escândalo!"
"Temos que deixar de fazer tudo que escandaliza os irmãos!"

Há tempos tenho ouvido frases como essas. A última me foi dita quase com furor há algumas semanas. É escândalo disto, escândalo daquilo. Parece que o vocabulário de algumas pessoas é resumido nessa palavra. Entretanto, muitos cristãos não tem conhecimento verdadeiro acerca do conceito de escândalo. Preocupa-me quando usam-no para descrever qualquer comportamento ou atitude que desagrade suas preferências pessoais ou em prol de um "bem estar social". Para entender melhor, é necessário estabelecer o que de fato é escândalo. E já cito de antemão duas postagens muito boas que auxiliaram  a construção deste texto: Escandalizar ou não escandalizar? Eis a questão! e Escândalo - pedra de tropeço no caminho.
Conceito
A palavra escândalo vem do grego skandalon, que é usada para traduzir duas palavras do hebraico: 
a)  michsol,  significa uma pedra de tropeço. Assim está em Levítico 19:14: “Não porás tropeço diante do cego.” 
b) mokesh, que  significa um laço ou armadilha. Declara-se em Josué 23:13 que as alianças com as nações estrangeiras são laços e redes.

A palavra escândalo, genericamente, é usada para substituir os termos "tropeço" e "cilada", embora ambas tenham um mesmo significado prático: uma ação deliberada para fazer com que alguém erre ou vacile.

Outros skandalon na Bíblia

Na explicação da parábola do joio em Mateus 13, nos versos 41 e 42 é dito: "Mandará o Filho do Homem os seus anjos, que ajuntarão do seu reino todos os escândalos e os que praticam a iniquidade e os lançarão na fornalha acesa". Em Lucas 17:1-2 "Disse Jesus a seus discípulos: É inevitável que venham escândalos, mas ai do homem pelo qual eles vem! Melhor fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma pedra de moinho, e fosse atirado no mar, do que fazer tropeçar a um destes pequeninos". Jesus deixa clara sua abominação pelo escândalo. Melhor é a morte que fazer com que outro tropece. No entanto, o próprio Cristo foi causador de escândalos. Novamente no evangelho de Mateus, no capítulo 15 lemos: "Então, aproximando-se dele os discípulos, disseram: Sabes que os fariseus, ouvindo a tua palavra, se escandalizaram? Ele, porém respondeu: Toda planta que meu Pai celestial não plantou será arrancada. Deixai-os; são cegos, guias de cegos.".

skandalon em I Coríntios 8

"No tocante à comida sacrificada a ídolos, sabemos que o ídolo, de si mesmo, nada é no mundo e que não há senão um só Deus. Não é a comida que nos recomendará a Deus, pois nada perderemos, se não comermos, e nada ganharemos, se comermos. E assim, por causa do teu saber, perece o irmão fraco, pelo qual Cristo morreu. E deste modo, pecando contra os irmãos, golpeando-lhes a consciência fraca, é contra Cristo que pecais." (I Coríntios 4;8;11-12)
Há uma questão a ser tratada aqui antes de prosseguirmos. Em primeiro lugar, esse texto fala exclusivamente  acerca de alimentos sacrificados a ídolos. Comer carne num templo pagão era algo que hoje equivaleria a comer num restaurante, mas com o agravante de que muitos consideravam tais refeições como ato de idolatria. Embora não houvesse pecado em comer num templo pagão, o pecado surgia se o ato fosse feito deliberadamente como adoração pagã [1]. O cuidado aqui é com o cristão fraco, pelo qual Cristo morreu. Esse cristão deveria ser instruído sobre essas práticas e onde está a origem desse pecado. Não há no texto nenhuma orientação quanto aos ímpios. O problema começa quando os cristãos atuais pregam a abstenção total de práticas "erradas" de acordo com usos, costumes e tradições, para que não exista a possibilidade de sermos confundidos com não-crentes.

Um exemplo para chegamos ao ponto de tensão: para a maioria dos crentes, não é possível beber uma cerveja com os amigos e amar a Deus verdadeiramente. A pior parte é que ao invés de tentarmos corrigir essa cultura errada, preferimos nos calar e simplesmente abrir mão de tudo que não agrada aos crentes para não escandalizar. Lastimável!

Concluímos dessa forma que há duas formas de escândalo. A primeira é o skandalon propriamente dito, quando temos a intenção de fazer com que alguém tropece com alguma atitude nossa. Esse acontece quando pessoas que já conhecem Cristo continuam com suas vidas vazias, sem nenhuma ética e seus valores totalmente corrompidos. Essas atitudes afetam diretamente aqueles que são novos na fé, que vacilam por imitar tais práticas pecaminosas.

A segunda forma é o oposto, o skandalon provocado pela ação transformadora de Deus em nossas vidas, que nos faz viver de acordo com bases éticas e morais totalmente contrárias às do mundo. Esse é o escândalo que Cristo causou: uma quebra de falsos paradigmas. A palavra da cruz é loucura para os que perecem (I Coríntios 1:18) e Cristo é escândalo para os judeus e loucura para os gentios (I Coríntios 1:23).

Devemos viver uma vida de santidade de acordo com os princípios de Deus, para que não escandalizemos os novos convertidos. Qual o verdadeiro e necessário compromisso com os neófitos? Instrução! Caminhemos juntos, estudemos e aprendamos juntos, para esses não cairem em pecado por nossa causa.

Quanto aos ímpios, temos que escandalizá-los como Cristo o fez, com nossa moral e ética pautadas nas Santas Escrituras. Escandalizar também os novos fariseus combatendo o seu legalismo. Devemos nos preocupar é com os escândalos dos falsos pastores com suas teologias satânicas, os crentes na política que só envergonham o evangelho, e não com quem usa bermuda na igreja, pastor que prega sem usar terno, pessoas que usam piercings e tem tatuagens. Fazer isso não é nenhum ato de amor ou preocupação, mas um falso exercício de piedade contrário às Escrituras.

"Que a paz de Cristo seja o juiz em seus corações, visto que vocês foram chamados a viver em paz, como membros de um só corpo." Colossenses 3:15.

Referências:
[1] Bíblia de Estudo de Genebra